segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

vamos todos assobiar, pode ser que ninguém repare








Obviamente, estou de acordo!
Crónica de João Miguel Tavares, publicada hoje no DN

"Como é mesmo aquele provérbio? Passou como cão por vinha vindimada. Sim, é mesmo esse. Foi assim, como cão por vinha vindimada, que a Polícia Judiciária e alguma comunicação social passou pelas notícias que diziam que o laboratório de Birmingham - no qual a PJ depositara a última réstia de esperança para resolver o caso Maddie - não fora capaz, após quatro meses de trabalho, de encontrar provas que sustentassem qualquer ligação dos pais da criança inglesa ao seu desaparecimento e muito menos à sua morte.

Nos últimos tempos, estivemos presos aos focinhos de dois cães pisteiros e a umas alegadas amostras de ADN. Agora, já nem sequer há isso. Agora, não há nada de nada - a polícia portuguesa não faz a menor ideia do que aconteceu a Madeleine McCann e é tão provável que este caso venha a ser resolvido como os pinguins começarem a voar. E no entanto, este ADN igual a zero, que é a informação mais importante em meses, não deu manchetes, nem comunicados, nem Prós e Contras, nem, já agora, um breve pedido de desculpas ou uma singela justificação.

Durante meio ano, andámos para aqui enfiados num lamentável Portugal-Inglaterra em conversa de salão. E agora, que se sabe quem perdeu, os investigadores enfiam a cabeça na areia. Só que há perguntas que não podem deixar de ser feitas. Afinal, o que é preciso acontecer mais para chamar incompetente, com todas as letras, a quem conduziu o processo na PJ? O que é preciso para que alguém peça publicamente desculpa pelos milhões e milhões de euros que este caso já custou ao País? E, de caminho, o que é preciso para que a comunicação social portuguesa faça uma análise séria do seu papel na tragédia e active mecanismos que a impeçam de se voltar a comportar como uma mesa de pingue-pongue, despejando boatos a mais e informação a menos?

Nunca deixará de me espantar a leveza com que nesta terra se assobia para o ar. Se repararem bem, quando um doutorado em portugalês (essa bela ciência que consiste em aproveitar os defeitos da pátria em proveito próprio) é apanhado em falso, ele não procura encontrar demasiadas justificações para o que fez - o que tenta é empatar o suficiente para dar tempo à borrasca para partir sem se molhar em demasia. É a atitude "deixa lá que isso passa". Profissional e com provas dadas. Suponho que agora seja essa também a estratégia dos polícias à frente deste caso: vamos mas é estar caladinhos que daqui a nada já ninguém se lembra. E tendo em conta a forma como Maddie se vai retirando dos jornais, a táctica parece boa. Na PJ já só se sonha com o silêncio dos arquivos".

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