sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

A Fernanda é que sabe...









"Leio o que vai saindo em jornais e revistas e blogues sobre o novo valor do salário mínimo para 2008 e fico sem perceber nada. Na Sábado, Sérgio Figueiredo, jornalista da área de economia que actualmente é administrador da Fundação EDP, assevera que o salário mínimo dos portugueses tem, nos últimos anos, "ganho", apesar de poucochinho, à inflação. O PCP faz uma nota sobre o assunto cantando vitória ("O anúncio feito da fixação do valor do Salário Mínimo Nacional para 426 euros mensais em 2008 constitui uma derrota da estratégia das associações patronais [e] só foi possível com a forte e persistente luta dos trabalhadores dinamizada pela CGTP-IN, que derrotou a estratégia de degradação do poder de compra e o ataque ao SMN") e conseguindo usar a tão saudosa palavra "mordomia" - infelizmente, apesar de procurar com gula, não encontrei "o grande capital" nem "os grandes latifundiários".

Numa busca na Net, encontro o artigo de opinião de há um ano do presidente da ANJE (Associação Nacional de Jovens Empresários), Armindo Monteiro, no qual este alega que só 5,5% dos trabalhadores ganham o dito, enquanto 28% dos desempregados são candidatos a ocupações susceptíveis de serem remuneradas com o SMN. E pergunta: "Estes candidatos a um emprego teriam mais probabilidade de o encontrar se a remuneração mínima não fosse tão elevada? A sua dignidade humana estará melhor protegida pela fixação de uma remuneração mínima ou pela inexistência de qualquer remuneração?"

Esta pergunta, que o perguntador reputa de "legítima" (e que legítima é sem dúvida), não pode deixar de convocar a fábula do empresário italiano Enzo Rossi, que resolveu tentar viver com o salário que pagava aos trabalhadores: 1000 euros. Percebeu que não conseguia e aumentou o pessoal. Armindo Monteiro, parece, faz as contas contrárias, alegando que há muitos trabalhadores cuja qualificação "não merece" um salário de 400 e poucos euros e que portanto deveriam receber menos por uma questão de justiça - para eles e para quem os contrata.

Olho para isto tudo e relembro: estamos a falar de 25 euros. O preço de uma refeição num restaurante médio. O preço de cinco bilhetes de cinema (nem chega). O preço de um DVD. O preço de uma camisa na Zara. Estamos a falar de miséria: a miséria de um país onde há mesmo gente a viver com 400 e tal euros por mês, gente que se mata a trabalhar por 400 e poucos euros por mês, e onde há quem discuta se isso não será mesmo assim de mais, sem se lembrar de discutir que raio de empresários quereriam pagar ainda menos que isso por um mês de trabalho e que raio de empresas merecem sobreviver se nem isso aguentam pagar aos seus empregados. E que raio de país é este no qual um aumento de 83 cêntimos por dia é uma grande vitória da classe operária e de todo o povo em geral".

2 comentários:

Anônimo disse...

Ler este teu post deixa-me triste...
Triste por ver que somos (des)governados por pessoas que não sentem a necessidade real dos seus (des)governandos;
Triste por ver que os empresarios portugueses apenas querem brincar ás empresas, esquecendo que essa brincadeira podem levar á morte (sim à morte) das pessoas que os fazem enriquecer;
Triste por ver que os trabalhadores confiam nos sindicatos (ou no presidente dos mesmos) e que estes agem com intuitos de enriquecimento proprio, e que as jornadas de luta não servem senão para que os sindicatos e seus presidentes não sejam esquecidos e percam o tacho;
Triste por ver que mais um ano vai passar e que os ricos são mais ricos e os pobres são mais pobres;
Triste por perceber que cada vez mais vou ter um aumento superior à inflação (sortudo, eu sei) mas que o meu poder de compra real vai diminuir e muito;
Triste por...
Páro por aqui... Feliz Natal, Fernanda... Zé Ná
(Publica se quiseres)

Anônimo disse...

Os "jovens" empresários portugueses deveriam exigir o regresso da escravatura. A economia e a competitividade do país certamente saíria reforçada. Tudo pelo mercado nada contra o mercado. Os trabalhadores produzem pouco e mal. O mal está nos trabalhadores claro. Os esforçados empresários portugueses bem que se desunham para levar o país na vanguarda mas compreende-se que com os tais de trabalhadores portugueses tal coisa é perfeitamente impossível. É óbvio que se os trabalhadores reclamassem mais trabalho e nenhum salário o país seria perfeito. São uns incompreendidos os empresários portugueses. É certamente uma calúnia afirmar que estes só sabem
criar empresas de "sucesso" desde que os salários sejam miseráveis.
Como certamente será uma calúnia a pequena notícia (um quadradinho refundido numa página interior de um jornal que li há pouco) sobre estudo que concluía ser a mediocridade dos líderes empresariais a razão do atraso português.